5# COMPORTAMENTO 25.12.13

     5#1 CULTURA A CU ABERTO NA PAULISTA
     5#2 ESTRATGIAS PARA VICIAR
     5#3 O QUE A BOLA DE NEVE QUER ESCONDER
     5#4 A POLMICA DO TOPLESS
     5#5 POR QUE PAPAI NOEL AINDA FASCINA

5#1 CULTURA A CU ABERTO NA PAULISTA
Como uma lei transformou em polo cultural a avenida-smbolo da maior cidade do Pas, hoje tomada por apresentaes artsticas, e levou a populao a ocupar o espao urbano 
Fabola Perez

COMUNIDADE - A decorao de Natal atrai mais visitantes  Paulista e, com isso, mais artistas tambm

Em meio aos sons, ritmos e cores que permeiam o cinza tipicamente paulistano, os acordes de Garota de Ipanema comeam a ficar cada vez mais claros. A verso animada da msica vem do tambor de Jos Evo da Silva, 76 anos. De boina branca e camisa social, ele se apresenta na avenida Paulista, em frente ao prdio do Conjunto Nacional, monumento do modernismo de 1954 que ocupa um quarteiro inteiro. Muita gente trabalha por aqui, a cada dia surgem novos prdios e o metr trouxe ainda mais movimento, diz o msico. Jos Evo sente-se  vontade no endereo-smbolo da maior cidade do Brasil, onde todo mundo pode ter seu prprio espao e conviver com diferentes pblicos. Quem gosta bate palma, quem no gosta passa reto. Mas ns continuamos aqui, diz. Como ele, outros artistas passaram a emprestar seus tons  avenida desde junho passado, quando entrou em vigor a lei que regulamenta as atividades culturais na rua em So Paulo. Agora, com a decorao natalina que atrai ainda mais visitantes, os artistas tomaram conta das caladas. Ganha a populao, que passou a ter a oportunidade de usufruir de uma srie de espetculos a cu aberto e de ocupar o espao urbano.

1.jpg

Concebidas para pedestres, as caladas largas da Paulista quase no conseguem mais acomodar as multides que se formam. So mais de 40 lojas, 73 prdios comerciais e 31 bancas de jornal que servem quem vai  avenida a trabalho ou lazer. Alm disso, as grandes galerias estimulam o convvio. A universalidade da avenida d a ela uma dimenso internacional, diz a arquiteta Carla Caffe, autora do livro Avenida Paulista. Prova do crescente dinamismo  o surgimento das agncias que promovem o free walking tour, passeios gratuitos em que as pessoas percorrem os principais pontos da avenida, como o prdio da Federao das Indstrias do Estado de So Paulo (Fiesp) e o do Museu de Arte de So Paulo (Masp), alm dos antigos casares.

 Mais do que um centro de negcios, a Paulista  hoje um espao de troca de experincias entre brasileiros e turistas. Quem visita a avenida tem a chance nica de assistir aos espetculos de dana e arte, protestar, desfrutar de espaos de convivncia e, sobretudo, experimentar o ritmo de um dos centros mais cosmopolitas do Pas. Todo turista quer conhecer a principal avenida da cidade, que rene o maior nmero de hotis em seu entorno, e aproveitar a oferta cultural e gastronmica, diz Luciane Leite, diretora de Turismo e Entretenimento da SPTuris. A esquina da avenida com a rua Frei Caneca  um dos pontos mais movimentados da regio. Nele, o ilusionista Weliton Kem, 36 anos, incita a curiosidade do pblico que deseja descobrir como o mgico conseguir desatar os ns que envolvem seu corpo. Veterano na Paulista, Kem diz que fazer mgica l  um carto de visitas extraordinrio. As pessoas assistem ao espetculo e depois me contratam para apresentaes em escolas e shoppings, diz.

Alm da lei que permitiu a liberdade de expresso dos artistas, a inaugurao da nova estao de metr e da ciclofaixa de lazer tambm foram responsveis por atrair mais pblico. Mais pessoas visitam a avenida, o que a faz viver um novo perodo de expanso, afirma Marcel Solimeo, economista-chefe da Associao Comercial de So Paulo. A Praa do Ciclista, por exemplo, tornou-se o ponto de encontro de quem gosta de pedalar todas as quintas-feiras  noite. O tcnico de qualidade Clio Videira, de 44 anos, percorre a regio de bicicleta h trs anos. Hoje temos mais segurana e os motoristas esto mais conscientes, diz.Vilma Peramezza, sndica do Conjunto Nacional h 30 anos, lembra que a Paulista nasceu para ser 5 Avenida brasileira. Era um lugar onde s viviam pessoas ricas, e hoje se transformou em um ponto de encontro de pessoas de todo o mundo, diz. Transformou-se em uma avenida mais democrtica.


5#2 ESTRATGIAS PARA VICIAR
Cada vez mais as produtoras de jogos para celulares como o Candy Crush criam artimanhas para fazer com que os jogadores no larguem os aparelhos e abram a carteira
Ana Carolina Nunes

RECORDE - Mais de 500 milhes de pessoas fizeram o download do Candy Crush em todo o mundo

Candy Crush Saga, o joguinho absolutamente viciante que tomou conta dos telefones celulares mundo afora neste ano, est se transformando em uma mina infindvel de dinheiro para a King.com, a produtora inglesa que o lanou h quase dois anos. Aps um incio tmido nas redes sociais e nos celulares, o Candy Crush deslanchou em 2013 e rapidamente passou a ser o responsvel por centenas de milhares de dlares entrarem na conta da King diariamente. Pela estimativa de especialistas como a Think Games, cerca de US$ 900 mil de receita esto sendo gerados todos os dias pelos usurios do Candy Crush nos quatro cantos do planeta.

 Todo esse dinheiro est sendo gasto por algo como 100 milhes de pessoas que todos os dias abrem o aplicativo em seus celulares, tablets ou computadores para tentar vencer os desafios propostos pelo jogo. S neste ano, calcula a prpria King, cerca de 150 bilhes de partidas foram jogadas por mais de 500 milhes de pessoas que baixaram o jogo de forma gratuita nas lojas de aplicativos da Apple ou Android. Cerca de 40% delas gastaram ao menos US$ 1,00 para no terem de esperar que novas vidas fossem concedidas de graa pelo jogo ou para terem alguma ajuda para superar uma fase difcil.

EQUILBRIO - O produtor de jogos Guilhes Damian, da QUByte, tenta achar o ponto para fazer games nem to fceis e nem to difceis

Apesar de parecer um desses casos de sucesso espontneo, como tantas histrias da internet, a saga milionria do Candy Crush foi estrategicamente pensada para fazer com que os jogadores se sentissem to ligados ao jogo que no se importariam em gastar US$ 0,99 para conquistar cinco vidas a mais. Existem os jogos de habilidade e os jogos de dinheiro. O Candy Crush  um jogo de dinheiro disfarado de jogo de habilidade, pois, por mais que se tenha habilidade, chega um momento em que o usurio vai ter de fazer um aporte para avanar na partida, diz Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependncia Tecnolgica do Programa Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo.

 No caso do Candy Crush, como em diversos outros jogos, mesmo aqueles que no envolvem o gasto de dinheiro, as estratgias so criadas para fidelizar ao mximo o jogador. So pequenas artimanhas, como os incentivos do Candy Crush quando se consegue uma jogada mais elaborada ou uma srie de fases fceis aps uma muito difcil, para que o jogador acredite que finalmente conquistou mais e melhores habilidades. O vcio surge pois, quando se entra nesse tipo de jogo, a pessoa comea a fazer alguma coisa que tem habilidade e com isso se perde no tempo, diz Abreu.

 Guilhes Damian, um dos criadores da QUByte, uma das mais bem-sucedidas produtoras de jogos para celulares no Brasil, conta que  preciso encontrar o equilbrio entre dificuldade e facilidade para conquistar os jogadores.  uma linha tnue entre deixar o jogo levemente mais difcil e fazer com que uma parcela dos jogadores esteja disposta a pagar para progredir mais rpido, conta ele, que hoje desenvolve games para Nintendo, Sony, Microsoft, Apple e Android.

O principal produto da QUByte, o joguinho de corrida de autoramas HTR,  um exemplo dessa estratgia. Mas vai alm. Guilhes e seus scios perceberam que havia um interesse imenso dos jogadores em participar diretamente da criao do jogo. Decidiram, ento, permitir que as pistas de corrida pudessem ser criadas pelos prprios usurios. Hoje so 20 pistas oficiais e mais de 80 mil disponveis para download, todas criadas pelos jogadores, conta. Os carrinhos, no entanto, so vendidos. O maior sucesso  o Fusca. Tudo virtual,  claro.


5#3 O QUE A BOLA DE NEVE QUER ESCONDER
Igreja evanglica da prancha de surfe, frequentada basicamente por jovens, tenta censurar livro que revela o conservadorismo por trs do discurso aparentemente liberal de suas lideranas
Rodrigo Cardoso

A Igreja Bola de Neve Church se inseriu no mercado das igrejas evanglicas brasileiras sob a aura de uma instituio religiosa amparada por uma embalagem contempornea e liberal.  assim desde 1999, quando o surfista Rinaldo Luiz de Seixas, 41 anos, o apstolo Rina, transformou em plpito a prancha de surfe e abriu as portas de suas unidades, que hoje somam cerca de 200 e tm 60 mil fiis. Mas, desde o ms passado, com o lanamento de A Grande Onda Vai te Pegar  Marketing, Espetculo e Ciberspao na Bola de Neve Church (Fonte Editorial), livro que investiga essa igreja composta majoritariamente por jovens de classe mdia e alta, em sua maioria internautas e fs de gneros musicais como reggae, rock, rap e hip-hop, ganhou evidncia a filosofia de conduta conservadora com que a denominao tenta controlar o cotidiano de seus fiis. Os pastores interferem nas escolhas dos parceiros amorosos e chegam a sugerir uma cartilha informal sobre posies sexuais permitidas.

Na Bola de Neve do apstolo Rina, (abaixo) h, segundo o historiador Maranho Filho (acima), indicaes aos fiis sobre as posies sexuais mais e menos aceitas

O historiador que assina a obra, Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranho Filho, foi membro da Bola de Neve entre 2005 e 2006, chegou a ser aprovado no curso de lderes de clulas, mas, por desentendimento com um dicono, no assumiu a funo. Desde 2009, ele publica trabalhos sobre a denominao religiosa e at hoje  abastecido com informaes por pessoas da igreja. Para ele, o apego a uma leitura descontextualizada da Bblia e o moralismo em relao a questes sexuais e de gnero so os principais aspectos que evidenciam o tradicionalismo da Bola de Neve. Para namorar um rapaz  e s pode ser um rapaz , uma moa tem de ter a concordncia do lder de clula, pastor ou apstolo, diz Maranho Filho, que fala, ainda, da existncia de uma espcie de guia de conduta no escrito sobre as posies sexuais permitidas. Neuza Itioka, uma palestrante externa do ministrio gape e Reconciliao, foi  Bola ministrar um curso de cura e libertao e pregou: A boca serve para comer, mas no para fazer sexo. 

Especialista em marketing e comunicao social, Maranho Filho expe ainda uma estratgia da Bola de Neve conhecida apenas no meio religioso. Em Florianpolis, Santa Catarina, onde ele passou a ter contato com a denominao, lderes da igreja relataram a ele que h um grande esforo para que a evangelizao foque com mais empenho na classe universitria. Querem formar crianas, adolescentes e universitrios cristos, diz. O objetivo  mudar para perto das universidades para ter gente deles dentro da academia e falar da igreja dentro e fora da instituio.  proselitismo forte, afirma o autor, cuja obra  resultado de oito anos de pesquisa, fruto de uma dissertao de mestrado defendida na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESCC) em 2010.

 A dissertao deu origem ao livro e, com isso, veio  tona outro componente conservador da denominao evanglica: a censura religiosa. A Bola de Neve tentou barrar, na Justia, a publicao da obra. Sem sucesso na esfera legal  a ao e um agravo de instrumento foram indeferidos por um juiz e um desembargador de So Paulo , a Bola de Neve enviou  Universidade de So Paulo (USP), onde ocorreu o lanamento do livro no dia 30 de outubro, um advogado que, acompanhado de dois rapazes, disse, segundo o autor: Se voc lanar, publicar ou divulgar o livro, vai ter problemas. A tentativa de censura prvia chocou a comunidade acadmica. No ms passado, durante a 17 Jornada de Estudos da Religio da Associao dos Cientistas Sociais da Religio do Mercosul, foi discutido o risco de um grupo religioso barrar pesquisas acadmicas e cientficas, afirma o professor de ps-graduao em cincias da religio da Universidade Metodista de So Paulo, Leonildo Silveira Campos. Referncia internacional em pesquisas sobre relaes entre religies, marketing e mdia, Campos resume o sentimento com essa manobra da Bola de Neve Church. H um medo por parte dos cientistas da religio de que a moda (da censura religiosa) pegue.

Para Tais Amorim, advogada da igreja, essa ao no se trata de um episdio de intimidao, mas uma tentativa de negociar amigavelmente com Maranho Filho a no publicao do livro, alm de tomar conhecimento dele, adquirindo um exemplar. Ou seja, no mnimo, fica claro que a Bola de Neve entrou na Justia sem ao menos conhecer o contedo completo da obra que repudiou. A obra trata da entidade como uma agncia mercadolgica. Essa no  a igreja Bola de Neve. Ela no tem nenhuma estratgia de atuao, de marketing, para crescimento. As estratgias so divinas, diz ela. Ironia do destino, o autor lanou sua obra em um simpsio internacional da Associao Brasileira de Histria das Religies (ABHR), cujo tema era Diversidades e (in)Tolerncias Religiosas.

Aparentemente resignada com o lanamento do livro, a Bola de Neve diz no ter inteno de continuar sua campanha contrria  publicao. A igreja pedia, alm da suspenso do lanamento e do cancelamento do simpsio, que Maranho Filho retirasse de circulao todos os artigos sobre a instituio, exclusse a fanpage do livro no Facebook e no fizesse mais nenhum tipo de meno a ela em trabalhos futuros. Mais: estipulava uma multa de R$ 50 mil caso o livro fosse lanado e uma multa diria de R$ 10 mil aps o lanamento. Seria o incio de uma mordaa crist em relao a trabalhos sobre evanglicos?, questiona Maranho Filho, que, depois de passar a ser vtima de ciberbullying e receber ameaas, procurou um advogado e a polcia para garantir sua integridade.


5#4 A POLMICA DO TOPLESS
Tolerante com a nudez no Carnaval, o brasileiro resiste ao ato de mulheres tomarem sol sem a parte de cima do biquni. Para mudar os costumes, cariocas organizam toplessaos para o vero. Ser que vo conseguir?
Michel Alecrim

Um dos enigmas do comportamento da sociedade brasileira sempre foi o fato de o povo conviver pacificamente com o hbito de usar pouca roupa nas ruas, pouqussima na praia e nenhuma no Carnaval, mas no aceitar o topless. Desde o fim da dcada de 1970 a brasileira tenta ir  praia sem a parte de cima do biquni, mas enfrenta reaes adversas ou violentas, ao contrrio do que acontece em balnerios europeus, por exemplo. O tabu, porm, pode cair neste vero. Um grupo de cariocas pretende marcar presena nas praias em alguns dias escolhidos da estao para se bronzear sem as amarras do suti. Coincidentemente, o primeiro toplessao, como passou a ser chamado o ato convocado pela internet, foi marcado para o sbado 21, quando se inicia a temporada mais quente do ano. Elas pretendem comear pela praia de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, que costuma lanar modismos para todo o Pas, e outras cidades devem aderir. 

 O Brasil avanou muito no terreno dos costumes nas ltimas dcadas. Do direito ao divrcio ao reconhecimento da unio civil entre pessoas do mesmo sexo, a sociedade vem derrubando tabus, um atrs do outro. Mas o seio nu continua gerando controvrsia. A reao ao topless mostra a resistncia do machismo na cultura brasileira, diz Clara Maria de Oliveira Arajo, professora de cincias sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apesar de uma maior igualdade entre os sexos, o corpo da mulher ainda  visto como objeto sexual e no lhe  dado o direto de usufruir dele como bem quiser. A antroploga Miriam Goldenberg endossa a tese: A proibio ao peito de fora  uma forma de nossa cultura dizer o que pode e o que no pode em relao ao corpo feminino. At o ato de amamentar em pblico causa polmica, tanto que vrios mamaos foram organizados nos ltimos anos. 

 A hipocrisia atinge o pice no Carnaval, quando ningum se importa com a exposio do corpo na avenida  at a genitlia desnuda j desfilou na Marqus de Sapuca. O topless na praia, no entanto, continua incomodando. Foi a experincia da atriz Cristina Flores, 37 anos, que motivou o toplessao. No ms passado, ela foi obrigada por trs PMs a vestir uma blusa quando exibia os seios para fotos de divulgao da pea Cosmocartas, na praia de Ipanema. Na verdade, nem sou praticante do topless, mas queria ter esse direito, diz Cristina. O caduco Cdigo Penal, de 1940, no seu Artigo 233, probe ato obsceno em pblico, e  nele que as foras repressoras se amparam.  um conceito indeterminado e os agentes acabam seguindo esses valores subjetivos, afirma Andr Mendes, professor de direito da Fundao Getulio Vargas (FGV).

Como cada um julga como quer, muitos tm mandado mensagens agressivas a uma das organizadoras do toplessao, a atriz Ana Rios, 23 anos. Desde que comeamos a organizar o ato, temos recebido muitas agresses pelo Facebook. Sinal de que no  fcil mudar a mentalidade das pessoas e poder lidar de forma mais livre com o nosso corpo, afirma a atriz. Para a sociloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Andra Brando Puppin, o caminho do enfrentamento pacfico  o mais eficaz para se garantir direitos.  atravs do choque que as coisas mudam. Por isso, o ato  vlido, defende a professora. 

 O topless chegou a ser abordado na novela gua Viva, exibida pela Rede Globo em 1980, que est sendo reprisada no canal pago Viva. Na fico, personagens como Stella (Tnia Carrero) e Bete (Maria Padilha) eram hostilizadas por outros banhistas. Mas nem a influncia televisiva mudou a sociedade. Na vida real, algumas praticantes chegaram a levar banho de areia dos incomodados. Eu e minhas amigas tnhamos que, de vez em quando, botar os tarados para correr, conta a modelo e apresentadora Monique Evans, 57 anos, que enfrentava as areias de Ipanema apenas com a parte de baixo do seu biquni asa-delta.  tempo de os costumes avanarem.


5#5 POR QUE PAPAI NOEL AINDA FASCINA
Nos dias de hoje, com os tablets, smartphones e videogames dominando o universo infantil, a magia do Natal resiste e  fundamental para o desenvolvimento das crianas
Camila Brandalise

INFNCIA - At os 7 anos, a criana entende o mundo por meio do imaginrio e do fantstico

No dia 25 de outubro, dois meses antes do Natal, o capixaba Ryan Lucas Teixeira da Silva, 9 anos, colocou seus brinquedos de lado, se sentou em uma mesa, pegou papel e caneta azul e comeou a escrever uma carta para o Papai Noel. Minha famlia  maravilhosa e me d tudo o que eu preciso, por isso quero que o senhor entregue meu presente a uma criana que precise mais do que eu, pediu. No final da mensagem, se despediu desejando feliz Natal ao destinatrio, aos seus ajudantes e a todas as crianas do mundo. Nessa poca, a fantasia do Papai Noel povoa o imaginrio infantil. Prova disso  que os Correios estimam receber, s neste ano, cerca de um milho de cartas de todo o Pas endereadas a ele. Imagens do velhinho simptico vestido de vermelho esto por todos os lados. Enquanto isso, a maioria das crianas ouve dos adultos que ele ser o responsvel por trazer os presentes na noite de Natal. Chegar solenemente num tren, conduzido por elegantes renas, entrar nas casas de todo o mundo, numa mesma madrugada, depositando os sonhos infantis sob as rvores iluminadas.

Mas, diante de uma gerao to familiarizada com as novas tecnologias e que parece saltar a etapa da infncia dedicada  fantasia, uma dvida dos pais  recorrente: ainda faz sentido incentivar o mito do Papai Noel?

 Para os especialistas, a resposta  sim. At os 7 anos, as crianas vivem o perodo do desenvolvimento cognitivo, em que seu entendimento do mundo acontece por meio do imaginrio, do fantstico. Reproduzir a histria do Papai Noel, um personagem caloroso e solidrio, seria uma maneira de estimular a criatividade e inserir no universo infantil valores como a benevolncia e a preocupao com o bem-estar do outro  ensinamentos que o pequeno Ryan parece ter assimilado muito bem. No se pode ficar preso  questo concreta, do presente. O bacana de ter a figura do Bom Velhinho  passar a ideia de generosidade, pois a criana leva esse conceito para outras pocas do ano, afirma Ivete Gatts, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infncia e Adolescncia da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp). Abusar da sinceridade e dizer que o Papai Noel no existe pode quebrar esse encantamento, segundo a psicopedagoga Teresa Messeder Andion, diretora da Associao Brasileira de Psicopedagogia. A criana ouve a histria na escola, escuta os amiguinhos falando e v imagens de Natal espalhadas; portanto,  natural assimilar a fantasia. Ento, se em casa a famlia diz que  mentira, ela vai viver em contradio, diz.

A melhor escolha dos pais, segundo os educadores,  deixar o filho fazer suas descobertas naturalmente. Caso ele pergunte se Papai Noel existe, a sada  ouvi-lo, tentar saber o que ele entende do Natal e responder  pergunta questionando se ele acredita, afirma a psicopedagoga Teresa. A analista de tecnologia da informao Gleise Segatto de Oliveira Teixeira, 32 anos, deixou que a filha Iara, de 6 anos, tomasse sua prpria deciso. Apesar de no incentivar o mito, ouviu-a perguntar ao pai, o tambm analista Jeyson Teixeira, 44 anos, se ele acreditava no personagem. Ele disse que no, mas que h pessoas que acreditam. E ela optou por crer na histria mais por influncia da comunidade, diz Gleise, que no monta rvore nem d presentes para a filha no Natal. A aeroviria Monica Seminara, 43 anos, preferiu dar outra resposta quando ouviu a pergunta do filho Gabriel, 10 anos. Eu disse que acreditava. Queria que ele continuasse acreditando tambm. Mas, sozinho, foi descobrindo que no passava de uma lenda. A outra filha, Isabel, 7 anos, ainda espera a visita do Papai Noel. Converso com a Isa sobre como ele atende os sonhos das crianas.  uma lio de esperana, uma histria bonita.

Normalmente, os questionamentos comeam a surgir na idade de Iara, aos 6 anos. Acontece uma virada na capacidade da criana e ela passa a ficar mais atenta ao mundo real do que ao imaginrio. No por acaso  a idade que ela entra na escola, afirma Ivete, da Unifesp.  quando comeam a fazer as associaes e por si s passam a questionar. A fase da infncia em que  mais provvel acreditar e se divertir com o Papai Noel  entre os 4 e os 7 anos de idade, afirma a psicopedagoga Teresa. At os 3 anos, a criana estranha mais ao ver uma pessoa fantasiada. Com um filho de 4 anos em casa, a projetista Alessandra Barth, 37 anos, incentiva a brincadeira. Deixo o Edgar imaginar, sonhar. Gosto disso, diz a me, que o ajuda a escrever as cartas. J a filha da professora Itlia Nicolai, 48 anos, Mirella, 8, entrou na etapa da dvida. No ano passado, meu primo se fantasiou e no tirou o tnis. Ela percebeu que era ele por causa do calado, diz. O mais velho, Erick, 10 anos, j no acredita mais. Ele descobriu pelos amigos e nos perguntou. Vimos que no tinha mais jeito e contamos a verdade. Foi tranquilo. A me s pediu a Erick que no revelasse a verdade  irm. Quero que ela acredite at quando for possvel. Mas, na hora em que se der conta, o melhor  no insistir. Caso contrrio, os pais correm o risco de o filho fingir crer na lenda somente para agrad-los.

Outro erro to comum quanto grave: associar o Papai Noel unicamente ao consumo. Claro que a criana vai relacionar a noite de Natal aos presentes, mas a reunio familiar, a histria por trs do mito e o sentido da comemorao do nascimento de Jesus, caso a famlia seja religiosa, precisam ser lembrados. Nesse momento, a convivncia  o mais importante. No se pode deixar levar apenas pela questo material, afirma a pediatra Evelyn Eisenstein, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Outro problema  usar a figura como um sistema de recompensa.  muito melhor os pais dizerem que o que filho fez no foi legal do que afirmar que o Papai Noel no vai lhe trazer presentes. Eles saem do papel de educadores e passam a funo ao personagem.  um desservio  educao da criana, diz Ivete, da Unifesp.

Uma questo dos dias de hoje  que, com a gerao atual, superconectada a tablets, smartphones e computadores, manter um mito como o do Papai Noel fica mais difcil. Elas tm mais acesso  informao e o desenvolvimento neurolgico  mais precoce, afirma o pediatra Marcelo Reibscheid. Segundo Tatiana Jereissati, coordenadora de pesquisas do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informao e da Comunicao (Cetic), a internet tem forte presena no cotidiano infantil. Andra Jotta, psicloga do Ncleo de Pesquisa da Psicologia em Informtica da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP), afirma que, por conta disso, as novas geraes no esto acostumadas com uma nica resposta s suas dvidas, pois sabem que podem chegar facilmente a diferentes explicaes. Se tiver curiosidade e estiver na idade de pr-alfabetizao, consegue acessar essas informaes sozinha, diz. O interessante, ento,  no acabar com a fantasia, mas tentar negociar. Mostrar que o Papai Noel pode no existir, mas  smbolo do Natal, que h lendas a seu respeito fazendo parte de uma cultura. Para Evelyn, da Uerj, a figura do Papai Noel pode ser ainda mais importante no momento atual. As crianas muito conectadas no sabem mais lidar com os sentimentos, pois a vivncia se volta para o virtual, afirma ela, que  autora do livro Gerao Digital: Riscos das Novas Tecnologias para Crianas e Adolescentes. Por isso,  ainda mais interessante inserir os mitos, pois o que envolve a brincadeira, como algum da famlia se vestir de Papai Noel, pode trazer o sentir de volta.

As tradies envolvendo a visita do Papai Noel na noite de Natal so relativamente recentes (leia na pg. 62). Segundo o historiador Gerry Bowler, professor de histria do Natal na Universidade de Manitoba, no Canad, a maioria das lendas sobre o personagem surgiu no fim do sculo XIX. Era uma poca em que a criao dos filhos estava se tornando menos dura e mais sentimental. Tambm era o momento da Revoluo Industrial, quando cresceu a produo de mercadorias e os preos diminuram. Papai Noel permitiu aos pais serem generosos com as crianas uma vez no ano e as vendas aumentaram durante essa poca, afirma Bowler. A origem do mito, porm,  bem mais antiga e est ligada  Igreja Catlica. A histria comea com So Nicolau, bispo de Mira, na Turquia, entre os sculos III e IV, conhecido por presentear crianas com roupas e alimentos. So Nicolau dedicou sua vida para ajudar os outros. Ele evangelizava com gestos, algo muito parecido com o que o papa Francisco faz atualmente, diz o padre Rafael Javier Magul, proco da igreja ortodoxa So Nicolau, de Goinia. Para o sacerdote, os pais devem aproveitar essa imagem que j existe para contar a histria do homem generoso por trs da lenda. Papai Noel existiu de verdade e foi uma pessoa misericordiosa que no se esquecia de ningum, diz padre Rafael. Talvez por isso ocupe um espao to privilegiado no imaginrio infantil.

